Ator é tudo igual, texto de Marcelo Rocha

Ator é tudo igual, ah se é; Tudo gente teimosa. Não muda. 

Entra ano, sai ano, com chuva, sol, neve, relâmpago queimando tudo em sua frente, e ele, lá. Teimando em ler, ler, ler, se olha no espelho, faz careta, sorriso, choro que não engana nem a própria mãe, mas tá lá. 

Fazendo o que todo mundo diz pra não fazer. E o povo dizendo: que é pra trabalhar, pra fazer algo que dê dinheiro, garantido, não essa bobageia de fazer de conta que é o que não é. As contas chegam, e elas sim são verdadeira, viu?

E o peão tá lá, se virando em mil. Ora virou eletricista; acha que manja de tudo, que é o mestre elipsoidal de toda obscuridade que aparece no meio da caminhada. Que entende de graves e agudos, retorno, microafinação, mixagem, equalização, e distribuição no espaço aéreo…

Cortam, serram, pregam, lixam, arrumam gomalaca, envernizam, lustram, pintam…rasgam a mão, perdem o sono, a hora de acordar, arrumam desculpa e seguem adiante.

Como viajam esses atores, em luas brancas, em sóis torrentes, em madrugadas cinzentas de nevoeiros seguidos, e mesmo assim, estão lá.

Teimosa essa gente, que não vê limites pra dizer o que quer dizer. Nem mesmo diante d’um casetete de alguém que acha que verdade não deve ser dita, e que se teimar em falar mal disso ou daquilo, vai levar borrachada em nome da lei.

Lei? Dizem eles. Que lei rege o amor? A vontade de abraçar, de beijar? Que lei manda eu ficar em pranto, feliz, enquanto meu jardim precisa de carinho, de água, de compaixão? E lá se vão dias e dias, meses, anos, sai um entra outro, e continuam com a mesma ânsia de fazer o que é diferente de tudo.

Mas, e tudo? O que difere desses?

Nada mais do que uma verdade dura, real. Sem as luzes, as cores, as roupas, as músicas.

Mas, nesse mundo real, faltam essas cores, muitas dessas roupas e ainda mais, muito dessas músicas. Sim, falta, pois o mundo real é pobre na aparência, e o ator quer a mais clara beleza pra que não te esqueças, que a pobreza deve ser ajudada.

E não é uma dor, uma doença, um trauma, que fará o ator deixar de fazer o que deve ser feito. Ele continua lá, a ler, ler, ler, de se pintar, maquiar, rimando o inevitável, decorando o inesquecível pra que no peito pulse a verdadeira força da paixão, de amar as letras que levarão em frente, sem parar, a missão do teimoso amoroso, do mentiroso verdadeiro, sem pressa, sem medo, no aguardo da volta, do reinício, da estreia, da reestreia.

Texto escrito por Marcelo Rocha. Acompanhe o jornalista também em seu programa ‘Em Cantos’.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Radiocracia Já!

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