Entrevista com Camila Godoi

A entrevista com Camila Godoi para a Radiocracia Já! tem como tema o feminismo, movimento em que a artista é engajada e se dedica junto a outras mulheres nessa luta.

A convidada é educadora do curso de formação feminista de Promotoras Legais Populares (PLPs); é voluntária no Girls Rock Camp Brasil e integra a banda de rock feminista, a ‘Clandestina’.

A entrevista com Camila Godoi tem como objetivo ampliar o entendimento e conhecimento na luta feminista e é destinada para quem já se envolve no movimento ou está interessada em se aprofundar mais no assunto.

Na Radiocracia Já! é idealizadora do programa ‘Brigada Feminista – Mulheres na Música’, onde se dedica à inserção de mulheres no mercado da música e recebe convidadas especiais.

Confira a entrevista com Camila Godoi

1- Como foi o seu processo com o feminismo? 

R: O meu envolvimento com o feminismo deu-se, de um modo bastante orgânico, conforme eu fui tomando consciência de que os vários “incômodos” que eu sentia por ser mulher, na verdade, eram opressões que eu sofria por ser mulher e este processo ocorreu de forma sincronizada com outras mulheres do meu círculo de amizades. Então, o meu processo de me reconhecer feminista ocorreu ao longo da troca de experiências e de saberes com outras mulheres, uma fortalecendo a outras.

2 – Como é a sua relação com a música e o feminismo? A arte é um grande aliado ao feminismo, certo?

R: Para além da felicidade de compor, tocar e cantar, a música é para nós, mulheres da banda Clandestinas, um modo de amplificar nossas vozes e levar nossas bandeiras de luta para muito mais pessoas. E, também, para nós, significou um processo de fortalecimento para nos expormos nos palcos de forma a nos sentirmos seguras e confortáveis e tendo a certeza de o palco também é nosso por direito e de fato.

3- Você acredita que o feminismo ainda é visto como um grande tabu em 2020? Como desmistificar?

R: Sim, porque o patriarcado-capitalismo morre de medo do feminismo. A nossa luta é para destruir o patriarcado-capitalismo e os vários tabus fazem parte das reações violentas do patriarcado-capitalismo para manter os seus poderes e privilégios.

4- O Feminismo possui diversas vertentes. Qual a sua visão sobre cada uma? E como escolher qual a melhor se encaixa?

R: Somos mulheres e somos diversas e, para mim, é coerente que haja uma diversidade de abordagens dentro dos vários feminismos, embora todas as vertentes tenham muitas pautas em comum. A minha militância dá-se segundo uma abordagem conhecida como “feminismo interseccional” que se empenha em dar conta, da melhor forma possível, dessa diversidade de mulheres. No entanto, temos consciência das limitações e incompletudes da nossa atuação e buscamos sempre aprender sobre o que está faltando através da escuta de mulheres que não se sentem representadas pela nossa luta.

5- Você é uma grande voz ao feminismo. Que dica você daria às mulheres se libertarem de vez do patriarcado? É um processo longo ou tem caminhos fáceis? 

R: Perdoe-me: eu discordo: eu não sou uma grande voz para o feminismo. A voz de cada uma de nós somente ganha força quando somada às vozes de outras mulheres. É no coletivo que as nossas vozes são amplificadas e são ouvidas, efetivamente. Quando eu ocupo algum espaço com alguma visibilidade, o que as pessoas escutam de mim é aquilo que eu aprendo, continuamente, com outras mulheres. Então, mesmo que eu esteja dando uma palestra, sozinha, o que eu estou apresentando é fruto de uma construção coletiva de saberes. Quanto à possibilidade de nos libertarmos das várias opressões que atuam sobre nossos corpos e histórias, o processo é permanente e dura enquanto dure o patriarcado-capitalismo e é por isso que nós, mulheres, precisamos estar sempre acolhendo e fortalecendo umas as outras: esta é a dica.

6- Qual é o papel do homem em relação ao feminismo? Eles devem apoiar, apenas escutar ou engajarem junto?

R: Opressões estruturais como o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia, o machismo etc. atuam através dos corpos mesmo que os corpos não queiram. Por exemplo, o racismo estrutural atua através do meu corpo de mulher branca mesmo que eu combata o racismo. Tomar consciência disso, quando usufruímos algum tipo de privilégio diante das opressões estruturais é um processo, às vezes, difícil. Mas, é um passo necessário e essencial. O que eu desejo que os homens façam, neste momento histórico, é, principalmente, refletir sobre os vários privilégios que usufruem por serem lidos como homens e compreender como, às vezes até de forma muito sutil, o machismo estrutural atua através dos seus corpos mesmo que eles se considerem pessoas engajadas no combate ao machismo.

7- As redes sociais são uma grande aliada ao feminismo? Como usá-las da melhor maneira?

R: As redes sociais não são neutras, politicamente. Há que se usá-las sempre tendo em mente que os seus proprietários/acionistas são parte da elite patriarcal-capitalista.

8- Quais leituras, artistas, documentários, músicas você indica para as mulheres se envolverem ainda mais com o feminismo?

R: Eu indico, fortemente, a leitura dos livros da Djamila Ribeiro, da Amelinha Teles, da Danielle Tega, da Angela Davis e da Silvia Federici. Na área da música, eu deixo uma lista de mulheres que, na sua diversidade, precisam ser ouvidas.

“Somos mulheres e somos diversas”

Deixo, aqui, uma lista com dez álbuns que podem ser facilmente encontrados nas plataformas de streaming. A seleção de álbuns, dentro dos limites de uma lista com, apenas, dez títulos, procurou mostrar um pouco da enorme diversidade de corpas, de orientações sexuais, de idades, de histórias, de territórios e de linguagens musicais.

álbum: Mulherio

artistas: Nenauá

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Nós

artista: Katu Mirim

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Luana Hansen no Estúdio Show Livre

artistas: Luana Hansen & DJ Mozão

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Toda Mulher Nasce Chovendo

artista: JuPat

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: A Cigarra Na Folha de Pedra

artista: Uma Luiza Pessoa

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Território Conquistado

artista: Larissa Luz

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Ode ao Bozo

artistas: Gatunas

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: União e Rebeldia

artistas: Bioma

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Mulamba

artistas: Mulamba

link para o álbum no spotify

——————–

álbum: Cadê as Armas ?

artista: As Mercenárias

link para o álbum no spotify

1 Comentário

  • Postado 25 de agosto de 2020 17:45 0Curtidas
    Leila de Noce

    Maravilhosa! Entrevista inspiradora!

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.